Projeto Lerelena

Projeto Lerelena

Em homenagem ao centenário do nascimento da poeta paranaense Helena Kolody iniciamos o Projeto Lerelena.

Nove poetisas do sul brasileiro se propoem ao desafio de ler relendo (ler helena) e interInvencionar. A proposta é confluir e colidir a nossa letra com a dela, helena. As interInvenções serão sempre sensibilizadas por poemas seus. Nesta primeira etapa partiremos de nove poemas que serão postados a cada sexta-feira.


Miragem no caminho (Helena Kolody)

Perdeu-se em nada,

caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho.)



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Projeto Lerelena 5 - Ausência

 

 

Ausência                                                                   (Helena Kolody)


No burburinho do mundo,
Gritam por mim; Onde estás?
A voz diz logo: - Eis-me aqui!
Por trás da voz não há ninguém.


Leitor em noite quente (Anali Mattar)


Na bainha da cortina azul
Corro atrás da sombra
E subindo ou descendo figuro neste filme entre as paredes das coxias

Na segunda butaca da segunda fila
Ensaio um poema 
E dormindo ou de olho fechado escuto minha voz de leitor em noite quente

No preto da caixa de som
Misturo meus deuses
E pingando dor ou amor sinto o mundo pequeno

E o teatro vazio.



Sem pressa vou indo (Lívia Berthe)


A pressa de ser me faz um não ser só.
Quando serei um só átomo?
Não sei.
Sem pressa vou indo,
como um burburinho no burburinho do mundo.



édipo rei
           (Turquesa)

antropotragarte
a ti, deus mórbido
de peles nuas
de carnes cruas
semimetade sintetizada
mimetizada em divindade
tua arte arde na cidade
fome e devoração
apavoro e voracidade
querer arder em ti é assim:
comes a própria cobra
que come o próprio rabo
que é o outro lado da dobra:
só o nada sobra



Ausência (Denise Vieira)

Como suportar mais essa ausência?
Minha fonte de carinho
Minha alegria secreta
Meu menino
Meu desejo

Eu sei e tu sabes,
teríamos outras formas...
Mas quem sabe
Não é Deus
Agindo para que despertes
ou te desimpeça...

Tenho medo,
não sei como é realizar
desejo tão grande
tão difícil
Tão longa e penosa caminhada
a tua espera
Se vieres meu amor
Abraçarei o céu


Onde? 
        (Olívia Lucce)

por trás desse eco que se propaga em minha cabeça
na minha frente está a verdade que se esconde no eco
devo repeti-lo?
prefiro esconder-me.



Solo 
     (Caro Liz)


Vestida de escamas gastas
busco conchinhas no chão

e o tapa da água na areia 
minha percursão.  

3 comentários:

Mafe disse...

Lindas as palavras de todos vocÊs.
Mas ainda aguardo aquelas palavras de alegria e felicidade...
beijos a todos Mafe

Cida Ikovê disse...

Burrinho imundo (Cida Ikovê)

Um burrinho imundo
Grita: Lá vou eu!
Atiça as orelhas: silêncio
Caminha devagar
Entra á casa, atento
Atrás da porta do banheiro percebe alguém
Prepara-se para surpreender o oculto
Porém a surpersa o abocanha
A vó sai do escondite casual
Ele fica sem voz
As orelhas murcham
Tenta voltar: é tarde
Vira lentamente a cabeça, fixo o olhar no chão, sabendo que a vó, naquele exato segundo, faz o mesmo, mas para seu espanto não vê as marcas impressas, no assoalho encerrado, de patinhas de burrinho imundo.

Alicia Ácida disse...

Ausente de mim (Alicida)

Busco no reflexo do espelho
Rebusco
Pinto a rua da cor que quero
Sinto
Posso dizer que sou falha
Estou falha.
Já que a perfeição não me pertence, que tal dançar na chuva?